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Coluna do Novidade

31/03/2017

UM DEDO DO PÉ

  

Era domingo, março de 2017 e chovia em Volta Redonda. Nem o mais esperançoso dos humanos poderia esperar que algo de genial acontecesse naquele dia cinza. De dentro do Kartódromo da cidade vinha um barulho trepidante e constante de motores e ferros em choque. Um burburinho deixava notar que o lugar estava cheio. Dava pra sentir o peso da ansiedade e da alegria que impregnava aqueles homens e mulheres com blusas iguais em tons de preto e laranja.

 

Eles pareciam um grupo religioso ao longe. Animados, eufóricos, sarcásticos e erráticos, espalhavam-se por todos os lados sem muitas preocupações, sem muita ordem. Num certo momento reuniram-se todos, ou quase todos, numa sala ritualística onde era impossível caber mais alguém. Parecia um grupo grande. Há fotos do momento, e eles parecem felizes reunidos. Quando saíram da sala todos ostentavam em suas costas: “Piloto”.  Era dia de etapa da F46.

 

Um dos mais antigos grupos de kart do Brasil disputaria sua primeira etapa do ano. Mas, mais que isso, era dia de uma das mais disputadas corridas da categoria que é o apogeu do grupo: a ACE. A categoria dos maiores pilotos, dos maiores egos, da maior técnica, dos donos de equipe e daqueles que tem o privilégio de ver sua foto na home da página sagrada do grupo na internet.

 

Logo no início do treino que definiria o primeiro grid de largada do ano da ACE dava para notar uma certa ordem no que esses pilotos faziam. Eles perfilavam-se de dois em dois e pareciam ficar mais rápidos com isso, mesmo com um kart batendo, ou “empurrando” como eles dizem, o tempo inteiro no outro. Cada dupla era uma equipe, era claro isso, e a equipe que conseguiu coordenar melhor essa promiscuidade kartística foi a tradicional Hayabusa. A águia azul fundadora do grupo parecia que decolaria livre para uma dobradinha aquilina, mas não foi bem assim. Conquistaram a pole com Arthur Vargas, decano do grupo, seguido de Matheus Teixeira, a grande esperança de títulos da águia no ano. Logo no encalço deles largava o onipresente lord Jesuan, seguido de Chico Lopes, um dos mais folclóricos paradoxos capilares do grupo. Gustavo Taveira, viria somente em quinto e Beto, um dos novatos na elite da categoria na humilde sexta colocação.

 

O dia na organização do kartódromo não era um idílio e uma sequência de problemas na cronometragem conturbava a etapa. Na ACE já havia parado de chover, e o ar pesava sobre os ombros. Ouvia-se o silêncio que antecede um grande acontecimento quando a luz se acendeu. Alguns pilotos claramente se desconcentraram com o entrevero antes da largada. O trepidar metálico dos motores aumentava seu volume a cada segundo que aquela luz vermelha ficava acesa e não apagava. Os olhos de todos estavam vidrados. Vargas apoiava as mãos nas rodas dianteiras com raiva. Não parecia querer perder por nada aquele primeiro lugar. A luz vermelha se apagou.

O balé começou a se formar e claramente um grupo assumiu a frente do palco bailando sinuosamente. Vargas, Matheus, Jesuan, Chico, Taveira e Beto seguiam colados uns nos outros, empurrando-se, cientes de que lutar demais naquele início de prova era abrir brecha ao erro e à chance de, numa categoria tão disputada, ser ultrapassado por mais de um kart. Era bonito ver a sincronia com que seguiam depois de alinhados. Depois de algumas voltas alguns já se sentiam confortáveis para atacar. Lá de trás via-se Beto voar surpreendentemente e assumir a terceira posição da prova num átimo, colocando-se à frente de grandes nomes que certamente não contavam com sua ousadia.

 

O dia infeliz do kartódromo ainda tinha uma vítima a desconcentrar nessa prova. O então líder Vargas, líder severamente pressionado desde a largada, é verdade, viu no painel de tempos seu kart perder posições misteriosamente e seu tempo deixar de ser marcado. Não lhe bastou olhar pra frente e ver que não havia ninguém e seguir guiando, quis o piloto reclamar da torre de controle e por míseros segundos ignorou que estava na ACE.  Perdeu a concentração e quatro posições. De uma só vez. Até o fim ainda viria a perder mais uma posição.

 

Nesse piscar de olhos o que parecia ser um início de ano brilhante foi por água abaixo para o veterano.  Voando baixo, Beto, que largou em sexto surge agora em primeiro lugar. Um dos que estrearam na Ace esse ano saía de sexto para a liderança da prova em poucas voltas. Da arquibancada era difícil acreditar que ele estava liderando, mais difícil foi entender como Matheus também havia caído e subitamente dois velhos leões espumantes, Chico e Taveira, pareciam lutar por território contra atrás leão mais novo. Era surreal, a corrida estava na metade e já tínhamos pelo menos três líderes diferentes. Os ataques à liderança da prova eram incessantes e o leão novato, apesar de ter um dos karts mais rápidos do dia, parecia estar se sentido ameaçado com aqueles dois velhotes babando em seu cangote a cada curva.

 

Ora na direita, ora na esquerda, ora pelos dois lados. As curvas na Jandira eram sempre um deleite. Alegrava ficar apostando mentalmente que horas alguém erraria e um dos três ou os três iam acabar fora da prova ou lá trás. Beto mostrava valentia e se defendia como podia. Agarrou-se na segurança de seu motor e fazia o pé pesar o máximo que dava. As curvas eram no limite. Notava-se que seria difícil resistir à tanta pressão. Enquanto Chico parecia ter os cabelos revoltos dentro do capacete, Taveira parecia frio e calculista, como se soubesse que poderia vencer na última curva. E esse ataque triplo se revezou e repetiu sempre no limite, e sempre limpos. Foi assim até que finalmente deu-se a bandeira branca e era hora de decidir.

 

Os três agora já tinham certeza do pódio, mas queriam vencer. Eles sabiam que seria tudo ou nada, e que o mergulho na Jandira definiria quem venceria. Era preciso sair quente do miolo, usar tudo do motor e atacar na Jandira deixando o freio para o último segundo, para o limite, quem sabe ir por dentro e usar o outro de parede, ou ir bem aberto e poder sair por dentro, as escolhas nesse momento fariam toda a diferença. Os corações na pista e fora dela pararam para ver o que aconteceria. Nesse momento todos em pé esperavam para ver como terminaria aquela insanidade que se desenrolava diante dos olhos. Como era possível uma corrida de kart ser tão emocionante?

 

O ar era então leve no kartódromo, os olhos estavam todos sem piscar e voltados para a pista, todos pareciam flutuar quando os três se aproximaram da saída do miolo juntos. Dava para ver que na hora da Jandira os três estariam lado a lado. Taveira por fora, Beto imprensado no meio e Chico por dentro. Eles passaram em câmera lenta diante do público. Beto já ficava um pouco para trás antes da curva. Seus ombros pareciam dobrar cansados, já quase admitindo a derrota, ao mesmo tempo em que sabia ser uma estupenda vitória na sua estreia já ter um pódio. Na saída da curva, ainda em câmera lenta Chico, que estava por dentro, começou a assumir uma posição estranha no kart. Taveira concentrado fazia de tudo para ter o máximo de grip na saída e tentar passar Chico antes da nova linha de chegada.

 



 Detrás do capacete reluzente certamente estava rangendo os dentes quando notou que Chico parecia se jogar em sua direção. Eles seguiam lado a lado e Chico continuava levantando-se do banco. Ele esticava o pé esquerdo. Mas que caralho ele tá fazendo? O pé? Porra, e pode? É, isso mesmo, o pé. Não, não tá errado. O pé! ele acelerou com o direito, levantou a bunda do banco e esticou o pé esquerdo para fora do carro! Chico ganhou uma prova de 5 líderes diferentes por um dedo do pé. Por um mísero dedo do pé.

 

Que corrida, senhores, que corrida...

 

No fim do dia Volta Redonda parecia feliz  e já saudosa daquele grupo que de vez em quando lhe fazia uma visita.

 

Para os de exatas, um dedo de pé equivale à 0.044seg.

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